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Agradecemos, agradecemos. Agradecemos. E não conseguimos ser gratos suficientemente!
Dar o que nos sobra não nos torna bons. Aliás, ser bom não é diferencial algum. É dever. Precisamos nos curar destas noções equivocadas que desapercebidamente tomam conta de nós, fazendo até que nos iludamos nas nossas relações com bicho gente! Se nos apaixonamos, por exemplo, por alguém que é leal e idôneo, não há nada de diferenciado neste ser. A menos que nossa base para sermos tratados pelos demais se embase à nível medíocre. Se aspiramos um modelo de conduta elevado, digno de um caminho espiritual de qualquer ordem, não podemos nos gabar de sermos bons acredito. Pois o bem é obrigação. Exceder o bem com caridade, altruísmo e abnegação talvez nos leve além. Mas ainda assim é aberto para discussão. O que tento expor aqui é o fato de que devemos apoiar as investidas do bem. E você que me lê agora por gentileza me faça companhia! Não necessariamente no Santuário, mas no bem! No bem enfatizo. Então se nós nos conscientizamos que não existem lares suficientes para todos os mestres cãezinhos que vemos aos montes pelas ruas, participemos ativamente de campanhas de castração. O nosso trabalho aqui não se restringe ao Santuário. Nossa labuta é trabalharmos com firmeza para que Santuários deixem de existir!
E na ausência do recurso, chega o pedido de socorro. Eu quereria mudar para outro planeta se ao pedir guarida para alguém, este ser checasse sua conta bancária em vez de me acolher em sua casa. Ou se eu mesma não oferecesse - ainda com riscos de falsidade e interesse imbuídos no acolhimento - a guarida mais simples e austera que fosse, a quem pedisse. O Santuário ensinou para mim, para nós, para o Vitor também, que dizer SIM é uma atitude espiritual. Que não é permissiva. É compassiva. Como o NÃO tampouco é ofensivo. Igualmente compassivo e espiritual. O que ambos ensinam é sabedoria.
No nosso cochilo sonhei que Mestra Peregrina, que então dormia, estava em pé! Acordei assustada, extasiada. Logo que abri os olhos uma sensação de frio mórbido tomou conta de mim, o frio dos corpos mortos. Ela ali se despedia. Em paz, com amor. E em seguida uma sensação de inebriante gratidão. Comecei a chorar tão logo percebi que não realizava nossa gratidão por ela. Eu recebia no meu espírito a gratidão dela por nós! Por cada um de nós. Suspirei e aquela imagem dela em pé se desfez na minha mente. Mestra Peregrina cavalga livre em outras dimensões.
Quando falávamos com ela de madrugada, na clara noção de que estávamos vivendo seu fim na carne, pedíamos perdão pelos seus ferimentos. E ela nos mirava dizendo que ela estava toda cicatrizada! A imagem da Roda de Cura tomava conta de nós repentinamente em vários momentos. Ali algo profundo nela foi curado, liberando-a ao infinito. Sabemos que ali ela também nos curou. O amor que ela ali recebeu foi além de qualquer medida que ela já pudesse ter visto ou vivido. Então me lembro dela alguns dias me dizendo como a experiência na Terra é querida, auspiciosa. E como devemos lutar por ela. Ela falava das belezas incontáveis deste mundo, da exuberância da Mãe Natureza provendo por todos seus filhos e, para minha surpresa, expressava seu amor por nós.
- Como você consegue nos amar? - eu em meu coração perguntava, por vezes sequer me sentindo merecedora daquele amor.
Neste instante vi uma planície gigante que lembrava cenários estadunidenses. Nela a poeira subia do deserto, que era palco para incontáveis bichos cavalo selvagens cavalgarem em liberdade. Estavam na presença de índios de superior espiritualidade que os guardavam. Quando me deitei sabia no meu coração que tinha visto sua morada espiritual. Mas minha ignorância naquele instante não me permitiu ver que ela não era um dos bicho cavalo, mas um dos pajés! Que na missão de despertar nossa espécie, se propunha a descer aqui para este planeta na pele dos que são por ele venerados. Mestre Cavalo! Ecoou profundamente no meu peito: "Percebe como você ainda se ilude com formas e espaços?" e chorei tendo percebido que tivemos a graça de conviver com um espírito superior que compassivamente usa do repertório que eu conheço no intento de ensinar. Não era um pajé. Não é nem índio, nem bicho cavalo. É você, sou eu. Somos um.
A última lição de Mestra Peregrina para nós chega nesta completude que escrevo estas linhas agora. Nesta paz de espírito de ter feito tudo que podíamos. De jamais termos nos negado a levantá-la ou socorrê-la. E mesmo sem fundos para os remédios, sem medo abrimos contas que ainda saldaremos para que ela fosse assistida. Eu posso dizer que o Vitor não dormiu uma média de 3 horas por noite desde o incidente. Cuidou dela com devoção. Espíritos que se reconhecem em missão.
Se fala ao teu coração estar com a gente, nós aqui receberemos você. Receberemos porque você atende um chamado íntimo de estar em um lugar que, empiricamente escrito, um que não é nosso. Mas que somos meros guardiões. O que determina tua vinda é tua consciência. Se estar aqui, ainda que não tenha conseguido mudar tua dieta, se estar aqui te remete à força necessária para operar transformações em tua vida, conscientizar diferentes formas de viver - ou simplesmente sustentá-las... Ah, por amor, venha! Sim, por amor. Aqui acreditamos que o caminho é pelo coração. Justificar nosso ódio pelos ofensores para falar de amor aos mestres animais é incoerente na nossa perspectiva. Deflagra em holofotes a cura que intentamos dar quando na verdade a solicitamos para nós - que feridos nos identificamos com outras vítimas em vez de enxergá-las em seu sofrimento. Para podermos curá-las. Conclui-se, portanto, mais uma vez, que a cura começa em cada um de nós.
Se teus olhos brilharam lendo tudo isto, faremos festa para tua chegada! E agradecemos já de agora por ser agente de transformação em um mundo carente de mudanças. Agradecemos tua coragem para se olhar e se ver, sem culpar os demais nos crimes que somos coadjuvantes quando nos omitimos ou meramente consumimos.
Mestre Cavalinho chegou em uma tarde de domingo, veio no dialeto mineiro de um caboclo em uma moto que da porteira da gente perguntou se poderíamos acolher bicho animal. O Vitor ao saber do caso prontamente comentou que precisaríamos de assistência hospitalar. Então aí começou um novo capítulo da vida dele, do Mestre Cavalinho, e da nossa. Porque nós todos fomos alterados no transcurso de algumas poucas semanas.
Quando cheguei saí aos tropeços do carro e avancei correndo na direção do iluminado. Então tive que conter meu desmaio por compaixão, por me colocar na situação dele vendo alguém chegar na suposta missão de me salvar e encenando uma perda de sentidos abrupta pela gravidade da minha cólera! Suspirei invocando uma força que pensava não possuir, mas que tomou conta de mim em um destes milagres que a piedade protagoniza. Sorri para ele serena e contei histórias das terras da Rainha.
Mestre Cavalinho trincou os corações mais duros, sensibilizava até os que eram surdos para voz de bicho animal. Quando um outro caboclo que ajudou no embarque se despediu de nós me olhou de maneira cortante dentro dos meus olhos dizendo: "Não deixa ele sofrer mais" - prendendo o choro incomum aos homens rústicos do campo. Mestre Cavalinho abriu mentes para que todos entendamos que cada vida é importante na sua plenitude. Colocou os arrogantes frente a frente com sua prepotência quando justificaram seu pouco caso em razões que ignoram o amor e que privilegiavam seu conforto - sem saber que este conforto e conformismo tirariam suas noites de sono; sem saber que se dormissem teriam pesadelos "E se fosse eu que sofresse invisível e outra versão de mim passasse à minha frente sem me ver, poderia eu mesmo me perdoar por saber que não recebia por não ter dado?" me indagou um homem que respondi com silêncio incentivando suas reflexões.
A caminho da casa encontrei Mestra Celeste, uma vaquinha iluminada deitada que tomava sol. Sentei-me ao seu lado silenciosamente. E triste. Tremia por dentro. Não queria ser forte. E não queria que a vida continuasse de forma a me fazer despedir dos mais velhos e cuidar dos mais novos. Estava apegada! Sofria com a minha pequenez. Tudo isto transitava no meu coração enquanto em aparente silêncio compartilhava campo com ela. Tive a sensação profunda de não ser julgada pela minha fraqueza e egoísmo, mas acolhida nas minhas distorções do amor. Ela balançou sua cabeça no chão a ponto de levantar terra com seus chifres. Entendi que pedia para que me aproximasse. Assim fiz. Ela então deitou a cabeça no meu colo e ficou imóvel. Eu sempre emocionada com todos eles recebi amor que gostaria que chegasse até vc que me lê agora. Chegasse de tal forma que se vc não é vegetariano ou vegano, que se tornasse neste instante!
Nosso Mestre conheceu o amor. E tendo dedicado sua missão ao despertar de uma nova consciência planetária não permitiu meramente que nós o conhecêssemos enquanto bicho animal. Permitiu que nos conhecêssemos como irmãos. Porque assim o amamos. Todos nós. E na oportunidade, bastasse a graça da irmandade, conhecemos o amor! Amor que transforma e que cura. Pondero que Mestre Cavalinho não foi curado porque veio para nos curar. Nos curar do desamor, das doenças das mentes pequenas que reclamam por serem vítimas de si mesmas. Mestre Cavalinho mostrou a força que um grupo de bicho gente tem para alterar destinos - sem jamais nos esquecermos que não assinamos a obra. A obra é do Mistério e dEle os desfechos. Deste ponto de vista, Mestre Cavalinho nunca adoeceu, mas teve na doença sua alforria e nela também a conclusão de sua elevada missão.
Agradeço aqui, ainda muito emocionada e comovida, com lágrimas que exaltam a grandeza de sua breve passagem - Mestre Cavalinho era moço! -, em nome do Vitor e em meu nome, representando sessenta seres de luz aqui abrigados, agradeço todo ser que auxilia a missão do Santuário, a de resgatar bicho animal e conscientizar bicho gente. E não posso deixar de agradecer - igualmente emocionada - pelo divino que vejo mover o Vitor no serviço que presta aos Mestres Animais, especialmente nas curas físicas que propicia com seus dons, aliviando suas dores, sendo confidente delas.
Lembro de ter visto naquelas estradas de terra a dor das vacas separadas de seus bezerros enquanto os homens usufruíam do leite deles, enquanto comercializavam sua carne e seus queijos. Vi o medo nos olhos dos porcos ao avistarem aqueles homens que me conduziam, como se conhecessem os demônios deles que de alguma maneira conviviam em outros homens, igualmente atormentados pelo mal. Nestes cursos de vida rural também vi galinhas procurando seus ovos, levados por outra classe de homens, iguais na tormenta que os acometiam. Vi cavalos amarrados sem água ao sol, vi cães magros e gatos melancólicos. Senti o cheiro dos javalis, abatidos por esporte. Talvez estivéssemos todos mortos, protagonizando um ensaio da vida no inferno. Ou quem sabe Deus tivesse nos deixado. Pior, talvez Deus estivesse presente, mas os homens ausentes Dele, se imbuindo em poder pessoal para se julgarem divinos, justificando assim esta dominação. Estes foram os eventos e reflexões que passaram por mim naqueles instantes que deram presságio à minha morte. Às vezes a gente não precisa desencarnar para morrer, para começar uma nova vida!
Daí em diante, a cada dia a minha saúde melhorava e eu sentia que me distanciava da terra dos mortos, pisando agora não de volta à terra dos vivos, mas pela primeira vez vivo em uma terra desconhecida para mim, onde homens e animais conviviam em harmonia.